quarta-feira, 7 de abril de 2010

Crônicas Livres

Uma Criatura
(machado de assis)


Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;E no mar, que se rasga, à maneira do abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;E caminha na terra imperturbável, como Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo Vem a folha,
que lento e lento se desdobra,Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto,
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;Começa e recomeça uma perpétua lida;E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a morte; eu direi que é a vida

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